1 de julho de 2011

Elevação para o Grau DeMolay


          
Era uma tarde nublada. O vento zunia pelas ruas em mais uma tarde de agosto daquele inverno um tanto forte de 2010. O centro da cidade de Ubá estava calmo, mostrando uma cena rara e melancólica (porém, fazia a mente meditar). Os olhos daquele iniciático jovem e cheio de vontade brilhavam em meio a um dia que alguns diriam ser desprezível. Não é pra menos: Este dia é o tão esperado dia. O dia que durou seis meses para chegar. O dia em que todas as esperanças, promessas, aprendizados e vontades se sagrariam para o resto da vida: 
Era o dia de sua elevação.
Não quis saber muito da prova da Olimpíada de Física que teve na parte da manhã. Não havia maneira de fazer os tão famosos cálculos: a caneta e o lápis tremiam em sua mão. Sua mente não focava nos números, e sim no mistério, delicioso de desfrutar, envolvendo o que aconteceria dali a algumas horas. Apenas foi para a escola, fez a prova com certa pressa e a entregou para o Professor (para sua surpresa, descobriria dali a uns dias sua aprovação na segunda fase da competição). Sentia-se como se sentiria um formando de uma faculdade ou curso: em suas veias corriam o sentimento de merecimento. Merecimento justo, pensava. Mas sempre lembrava que ainda havia algo mais para se aprender, para se descobrir. Afinal, para ele, sua jornada começaria, verdadeiramente, nesse dia.
O traje, tantas vezes utilizado, parecia ser mais difícil de se vestir, hoje. A gravata não se ajustava em uma posição simetricamente perfeita e digna em seu colarinho. Mas, para sua felicidade, ainda tinha duas horas para se aprontar. O ponteiro do relógio fazia o tic-tac habitual em um ritmo cada vez mais lento, tornando-se um tic… tac…. tic….. tac……
- Pai, vamos? A gente vai se atrasar desse jeito!
- Seu compromisso não é às 17 horas? – o garoto concordou com um leve aceno da cabeça. – Então! A gente tem ainda meia hora!
- Prefiro chegar mais cedo… – e, improvisando uma desculpa – Foi combinado que nós chegássemos meia hora antes!
Exatos quinze minutos depois, o carro parava enfrente ao velho sítio perto da loja.Como era bom estar ali de novo, pensava ele! A brisa que batia nas Folhas das arvores, trazia o frescor das lembranças de sua primeira vez ali: quando ainda não carregava o título honroso de membro da Ordem; de quando apresentou sua primeira cerimônia e fez sua mãe e avó chorarem. Os olhos do garoto apenas brilhavam. No meio daquela calmaria, nada mais faziam do que brilhar. Beijou seu pai e adentrou o templo. Porém não só, como na iniciação, mas rodeado de IRMÃOS
Até hoje ele não sabe o que acontece: custa apenas juntar-se a seus irmãos, que seu espírito se renova; as mágoas são deixadas do lado de fora; seus passos são mais leves. Enquanto os preparativos eram feitos, ficaria em uma sala esperando o momento certo com seus irmãos iniciáticos. Ainda bem que seus Tios não os viam, afinal, era bagunça só (fruto da ansiedade). Nada lhe tirava o sorriso do rosto.
Tudo pronto, deu-se início a sua passagem para outro patamar. É desnecessário descrever o que passou pelos olhos do jovem. Apenas ele saberia descrever. Melhor, penso que nem ao menos ele seria capaz de tal feito, pois foi algo tão pessoal, tão sentimental, que palavras não seriam suficientes. Agora, ele poderia afirmar apenas uma coisa: eu sou um irmão, sou um DeMolay.
Era chegado o momento de se manifestar. Tinha vontade de ser o primeiro a se levantar, mas algo o impedia: as palavras sumiam! Tudo o que ele havia planejado dizer, parecia significar nada naquele instante. Porém, após as breves palavras do irmão a seu lado, uma força o empurrou para cima:
- Boa noite a todos!  – começou com a costumeira saudação – Eu gostaria…
"Gostaria do que?"- pensou - As pernas tremiam; o coração batia mais rápido e mais forte; as mãos, tão usadas na hora de falar, lhe falhavam; os olhos começavam a parecer uma piscina enchida até a metade.então a meio a Discretas lágrimas e soluços;..
- Gostaria… de dizer apenas uma palavra hoje: obrigado. – A piscina se enchera demais e começara a vazar – Obrigado pela oportunidade… por estar aqui hoje … – a voz já não saía mais a mesma – … isso é tudo… boa noite…
Desmontou na cadeira. Algumas sinceras lágrimas ainda lhe corriam no rosto. Enxugava, discretamente, com medo de que isso pudesse ser envergonhoso. Por mais que não o fosse. Chorou nesse dia pelos momentos que havia passado ali dentro; pelas dificuldades que enfrentara em alguns momentos; pelas felicidades e sorrisos trocados nos bons instantes; pelas provações que encontrou fora do ninho das reuniões; pelas promessas que tomara; por seus pais.
 Chorou enfim um choro diferente;
Um choro com lágrimas inocentes. Com lágrimas iniciáticas; com lágrimas DeMolay.

Um comentário:

  1. Posso garantir que esse texto reflete a forma como todos os iniciáticos, dignos da cerimônia de elevação ao grau DeMolay, sentem-se. Garanto em meu nome, pois é desta forma que me sinto hoje, às vésperas de minha elevação; e acredito que me sentirei assim no momento, até pq só quem vive isto sabe o quanto é especial. Ótimo texto.
    Espero encontrar o autor no CNOD 2012 e expressar-lhe a gratidão por ter redigido com tão belas palavras.

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